Minhas anotações se reescrevem sozinhas toda noite
Um sistema de conhecimento rodando em casa que destila o dia em uma wiki que meus assistentes conseguem citar. O que faz, quanto custa e onde ainda incomoda.
Em março passei dois dias refazendo uma decisão que o time já tinha tomado em novembro. O raciocínio existia. Eu tinha escrito na época, numa nota que nunca mais abri, num aplicativo que abandonei em fevereiro.
Foi a quarta ou quinta vez. Guardar nunca foi o meu problema, tenho milhares de anotações. O problema é que uma nota só serve no momento, meses depois, em que ela muda o que você decide, e a essa altura você já esqueceu que ela existe.
Então parei de tratar aquilo como arquivo morto e comecei a tratar como matéria-prima.
Como funciona
Tudo roda num Mac mini aqui no apartamento. É uma decisão de privacidade, não de orçamento: ali estão meu trabalho, meus planos e conversas que eu não colaria no serviço de outra empresa.
As entradas chegam como markdown em dois repositórios git, um pessoal e outro profissional, sem mistura. Compromissos da agenda, tickets, anotações de reunião, conversas salvas. Nada sofisticado, são arquivos.
Às duas e meia da manhã um processo acorda, lê o que chegou no dia e atualiza uma wiki. Uma página por pessoa, por projeto, por decisão, por assunto. O ponto importante é que ele reescreve essas páginas em vez de ir empilhando conteúdo embaixo. A página de um projeto não é o histórico de tudo que já se falou sobre ele. É o que é verdade sobre aquele projeto hoje de manhã, com as contradições resolvidas e o que ficou velho removido.
Os links entre páginas vão para uma tabela no Postgres, então consigo perguntar quais decisões saíram de qual projeto, ou no que determinada pessoa mexeu. Quando pergunto alguma coisa, a resposta vem com link para as páginas que ela usou. Se a resposta estiver errada, eu corrijo a página, e toda resposta futura melhora.
Esse último ciclo é o que faz valer a pena manter isso de pé. Busca em cima de um monte de nota devolve a nota. Reescrever devolve um resumo que fica melhor enquanto você dorme.
A parte que eu não esperava
O repositório profissional criou uma seção que eu não desenhei. Cada funcionalidade que construí ou liderei ganhou a própria página: o que era, qual foi meu papel, o que foi entregue. Eu não sentei para montar um portfólio. O processo da madrugada fez isso como efeito colateral de ler meus tickets.
Quando chegou a época de avaliação, o material já estava pronto, com data e link. Economizou um fim de semana e ficou mais honesto do que a versão que eu montaria de memória.
O que custa
Duas coisas, e as duas são reais.
A síntese roda todo dia num modelo intermediário e uma vez por semana num modelo mais forte, que procura contradições entre as páginas. É nessa passagem semanal que vai a maior parte do gasto, e é justamente a que eu manteria se tivesse que cortar uma.
O outro custo é confiança. Um sistema que reescreve suas próprias palavras pode reescrever errado. Markdown no git é o que torna isso suportável: cada passagem é um commit que dá para comparar e desfazer. Li esses diffs nos dois primeiros meses. Hoje olho uma vez por mês, e desfiz três.
Se você for montar um
Comece pelo ciclo que lê, não pelas ferramentas que capturam. Capturar é problema resolvido e todo aplicativo faz. É no lado da leitura que esses sistemas morrem.
Mantenha os repositórios separados. Misturar conhecimento pessoal e de trabalho parece eficiente por uns dias, até um assistente responder uma pergunta sobre um colega com algo da sua vida pessoal.
Use arquivo comum. Sem amarra de banco de dados, sem exportador para manter, e a coisa toda sobrevive a qualquer ferramenta que você estiver usando este ano.
Hoje monto isso para outras pessoas, quase sempre gente que tem a mesma queixa que eu tinha. O discurso sai fácil demais, o que é um sinal de alerta, então vai a versão honesta: foram quatro tentativas em dois anos até chegar numa que eu ainda uso.